E se o seu próximo concorrente nem existir ainda?

Existe uma pergunta que talvez seja mais importante do que conhecer os seus

concorrentes atuais: quem poderá resolver o problema do seu cliente amanhã de

uma forma que hoje você ainda não consegue imaginar? Durante muito tempo, fazer

análise competitiva parecia relativamente simples. Bancos observavam bancos. Escolas

acompanhavam escolas. Consultorias comparavam-se com consultorias. Indústrias

conheciam os principais players de seu setor. Sabíamos quem disputava o mesmo

cliente, quais eram os preços praticados e onde estavam as vantagens de cada empresa.

Só que essa lógica está ficando pequena para explicar o mercado que está se

formando. As fronteiras entre setores estão cada vez menos claras. Tecnologia,

inteligência artificial, novos hábitos de consumo e modelos de negócio mais leves estão

permitindo que empresas entrem em mercados aos quais, poucos anos atrás, não

pertenceriam. Na pesquisa global da PwC, 42% dos CEOs afirmaram que suas empresas

já começaram a competir em novos setores nos últimos cinco anos.

Esse dado deveria provocar uma reflexão profunda em qualquer empresário.

Talvez o concorrente que mais ameaça o futuro da sua empresa não esteja na sua

planilha de benchmarking. Talvez ele ainda não tenha marca, equipe, faturamento ou

sequer tenha sido fundado. E isso acontece porque novos concorrentes não precisam

necessariamente construir uma versão melhor daquilo que você já faz. Eles podem

simplesmente mudar a maneira como o problema é resolvido.

Essa diferença parece pequena, mas é enorme. Quando uma empresa pergunta

“quem vende o mesmo produto que nós?”, ela olha para o mercado a partir daquilo que

já existe. Quando pergunta “de que outras maneiras o cliente pode resolver o problema

que hoje resolve conosco?”, começa a enxergar o mercado a partir do futuro.

É exatamente aí que mora uma das maiores vulnerabilidades das empresas

estabelecidas. Quem está há dez, vinte ou trinta anos em um mercado conhece

profundamente suas regras. E isso é uma vantagem até o momento em que essas regras

começam a mudar. Uma empresa madura possui clientes, processos, funcionários,

contratos, sistemas, fornecedores, canais, produtos rentáveis e uma história que precisa

preservar. Tudo isso constitui patrimônio. Mas tudo isso também influencia sua

capacidade de imaginar algo completamente diferente.

Quem começa do zero não carrega esse compromisso. Pode olhar para o mesmo

problema e perguntar: se eu fosse criar hoje uma empresa para resolver isso, com a

tecnologia e os recursos disponíveis agora, eu faria da mesma maneira? Essa é uma

pergunta desconfortável.

Porque talvez a resposta seja não. Talvez não fosse necessária a mesma

estrutura. Talvez algumas funções não existissem. Talvez o produto fosse vendido de

outra forma. Talvez aquilo que hoje é um serviço pudesse virar plataforma. Talvez algo

que hoje exige dezenas de pessoas pudesse ser executado por uma equipe pequenaapoiada por inteligência artificial. Talvez o cliente nem precisasse comprar exatamente

aquilo que sua empresa aprendeu a vender.

O Fórum Econômico Mundial encontrou 86% dos empregadores esperando que

inteligência artificial e tecnologias de processamento de informação transformem seus

negócios até 2030. Mas acredito que a reflexão empresarial mais interessante não seja

quantas empresas utilizarão IA. É quantas empresas serão redesenhadas porque ela

existe. Existe uma diferença enorme entre colocar tecnologia dentro de um modelo

existente e utilizar tecnologia para questionar o próprio modelo.

Automatizar um processo antigo pode gerar eficiência. Mas não necessariamente

gera futuro. E talvez seja justamente esse um dos erros que veremos nos próximos anos:

empresas investindo muito para fazer mais rapidamente coisas que já não deveriam

fazer da mesma maneira. Por isso, quando penso em inovação, a pergunta que me

interessa não é apenas “qual tecnologia podemos implementar?”. Prefiro perguntar:

O que se tornou possível agora que era economicamente inviável quando esta

empresa foi criada?

Essa pergunta muda a conversa. E traz outra ainda mais importante: se alguém

utilizar essas novas possibilidades contra o nosso modelo atual, onde estaremos

mais vulneráveis? Pode ser no preço. Pode ser na velocidade. Pode ser na distribuição.

Pode ser na experiência do cliente. Pode ser na quantidade de pessoas necessárias para

operar. Pode ser na personalização. Pode ser no acesso à informação. Pode ser na forma

de cobrar. E pode ser justamente naquilo que hoje consideramos nossa maior vantagem.

Esse é outro ponto que empresários precisam observar com cuidado: nem toda

vantagem competitiva permanece vantagem para sempre. Uma enorme estrutura

física pode representar presença e capilaridade. Mas também pode representar custo.

Uma equipe muito grande pode significar capacidade de entrega. Mas também pode

signific uma arquitetura operacional difícil de sustentar diante de concorrentes muito

mais leves. Um produto responsável pela maior parte do faturamento pode representar

liderança. Mas também pode representar concentração.

Uma empresa conhecida por décadas pode carregar reputação. Mas também

pode ficar emocionalmente presa à fórmula que construiu essa reputação. É por isso que

resultados atuais precisam ser interpretados com maturidade. Faturamento mostra que

alguma coisa funcionou até aqui. Ele não garante que essa mesma coisa continuará

funcionando daqui a cinco anos. Algumas empresas entram em crise quando seus

números já estão ruins. Outras começam a perder relevância justamente enquanto os

números ainda parecem bons.

Esse segundo caso é muito mais perigoso. Quando o caixa está saudável, o

produto vende e os clientes continuam chegando, existe pouca urgência para questionar

o modelo. E é exatamente nesse momento que uma empresa pode deixar de perceber

pequenas mudanças que, acumuladas, transformarão completamente seu mercado. Por

isso acredito que uma das responsabilidades mais importantes da liderança seja

proteger a empresa sem proteger excessivamente a forma atual da empresa.São coisas diferentes. Proteger o negócio significa garantir que ele continue

criando valor. Proteger o modelo atual a qualquer custo significa assumir que a forma

como esse valor é criado hoje precisa continuar existindo amanhã. E talvez não precise.

Existe uma pergunta que eu levaria para qualquer reunião de conselho:

Você está disposto a construir a próxima versão da sua empresa antes que alguém

construa por você?

Porque reinvenção verdadeira frequentemente significa mexer naquilo que ainda

funciona. Significa testar um canal que pode competir com o atual. Criar uma solução

que talvez reduza a demanda de outro produto. Redesenhar funções. Questionar

estruturas. Entrar em mercados adjacentes. Abandonar atividades que fizeram sentido

no passado. É muito mais confortável inovar sem ameaçar nada. Mas talvez isso nem

sempre seja inovação. Talvez seja apenas melhoria. E existe uma última reflexão que

considero especialmente importante. O próximo concorrente não precisa ser melhor que

você em tudo. Ele precisa ser dramaticamente melhor naquilo que o cliente passou a

considerar importante.

Pode ter menos história, menos funcionários, menos estrutura e menos produtos.

Mas se compreender uma mudança de comportamento antes de você, pode construir

toda a empresa ao redor dela. Enquanto isso, organizações estabelecidas podem

continuar tentando encaixar essa nova realidade dentro da estrutura antiga. É por isso

que, hoje, eu faria menos perguntas sobre concorrentes e mais perguntas sobre

mudanças.

• O que o seu cliente está começando a valorizar que antes não valorizava?

• O que ele deixou de aceitar?

• O que ficou mais barato?

• O que ficou mais rápido?

• O que deixou de ser escasso?

• Qual intermediário deixou de ser necessário?

• Que conhecimento virou commodity?

• Que parte da sua entrega poderia ser automatizada?

E principalmente: se alguém começasse hoje, sem nenhuma obrigação de preservar

o passado da sua empresa, como resolveria o problema do seu cliente?

Talvez seja dessa resposta que venha o seu próximo concorrente. Ele pode ainda

não existir. Mas as condições que permitirão que ele exista talvez já estejam sendo

construídas. E a questão mais estratégica não é descobrir quem ele será. É decidir quem

sua empresa precisa se tornar antes que ele chegue.

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